Notícias

Fique por dentro das notícias!

O Ouro Roubado: Os 20 Anos do Inominável Mundial de Hóquei no Chile

Duas décadas se passaram desde que a seleção brasileira feminina de hóquei sobre patins desembarcou em Santiago, no Chile, em 29 de setembro de 2006. Aquela equipe representava o auge de uma geração de ouro: após bater na trave com dois vice-campeonatos mundiais consecutivos em 2002 e 2004, o grupo amadurecido chegava para o que deveria ser a sua consagração definitiva. O favoritismo era tão palpável que o jornal LANCE!, principal veículo esportivo do país na época, dedicou uma página inteira para destacar que o título inédito era apenas uma questão de tempo. O que as atletas não sabiam é que o verdadeiro adversário não estaria de patins, mas nos gabinetes, orquestrando um dos maiores escândalos de corrupção e injustiça da história do esporte.


O Preço do Sonho

A odisseia começou muito antes do primeiro apito. Por ter sido vice-campeão no torneio anterior, o Brasil tinha o direito de ter suas despesas financiadas pelo Ministério do Esporte, mas a habitual burocracia atrasou a liberação da verba. Para garantir que o país não perdesse o seu “mundial derradeiro”, o selecionador Antônio Martins de Albuquerque assumiu o risco. Do próprio bolso, ele antecipou integralmente os custos com passagens aéreas, hospedagem e alimentação para toda a equipe, sob a promessa de que seria reembolsado assim que o dinheiro do governo fosse destravado.

Em quadra, o Brasil estreou com a força que se esperava, aplicando uma goleada impiedosa de 12 a 0 contra a África do Sul. Contudo, nos bastidores, um golpe já estava em andamento. Momentos antes de a bola rolar, a Federação Portuguesa de Patinagem apresentou um e-mail sem assinatura e de validade completamente duvidosa. O documento apócrifo acusava a goleira titular do Brasil, Silvana Nishi, de ter sido flagrada em um exame antidoping meses antes, em junho de 2006. Convicto de que se tratava de um erro bizarro de procedimento, o comando brasileiro manteve a goleira no jogo.

O Comitê Internacional de Rink Hockey (CIRH) não apenas aceitou a denúncia vazia, como marcou um julgamento para o fim da fase de grupos. Implacáveis no rinque, as brasileiras continuaram vencendo, classificando-se em primeiro lugar na chave — repetindo o feito dos dois mundiais anteriores — e agendando um confronto de quartas de final justamente contra as anfitriãs: o Chile.


A Diplomacia da Omissão e o Golpe Frio

Enquanto a equipe suava a camisa, a comissão técnica tentava combater o incêndio político. Marcelo dirigiu-se ao Consulado Brasileiro no Chile em busca de socorro. A resposta do embaixador foi um balde de água fria, recusando-se a intervir sob a justificativa de que se tratava de um “problema internacional”. A indignação de Marcelo resumiu o sentimento de abandono da delegação: afinal, para que serve uma embaixada se não para proteger os seus cidadãos de injustiças no exterior?

Livre de qualquer peso diplomático, a Federação Portuguesa avançou com o golpe, apresentando uma série de documentos falsificados ao CIRH. De forma arbitrária e conivente, o comitê aceitou as falsificações e aplicou uma punição devastadora: o Brasil perdeu todos os pontos conquistados legitimamente na fase de grupos. O time foi rebaixado para o último lugar da chave e condenado a disputar o torneio de descenso, brigando apenas pelas posições de 9º a 16º lugar.


Chantagem e Narizes de Palhaço

A revolta tomou conta do vestiário. As jogadoras, com o orgulho ferido e a clareza de que o torneio estava armado, decidiram abandonar a competição. “Seja a decisão que tomarem, estamos todos juntos. Apenas não briguem entre si.” Pediu Marcelo.

Foi então que o CIRH elevou a injustiça ao nível da chantagem. A organização ameaçou suspender a Confederação Brasileira de Hóquei e Patinação (CBHP) de todas as modalidades por dois anos se a equipe abandonasse o Chile. A punição afetaria também a patinação artística e a seleção masculina de hóquei, que tinha chances reais de pódio no Mundial da Suíça de 2007.

O golpe de misericórdia veio do próprio Brasil. O presidente da CBHP ligou para Patricia Albuquerque e disparou um ultimato cruel: se a seleção voltasse para casa, seu pai nunca seria reembolsado pelo dinheiro que investiu para levar o time ao Chile. Para salvar o homem que viabilizou o sonho do grupo, Patricia liderou uma revogação à decisão do boicote. O vestiário explodiu; as meninas brigaram entre si. Ainda assim, decidiram jogar.

A capitã Patricia Perini assumiu o sacrifício e vestiu o equipamento de goleira reserva, função que nenhuma outra suplente quis exercer. Como forma de escancarar o circo em que o campeonato havia se transformado, a equipe foi até uma loja de fantasias e comprou narizes de palhaço. Com eles no rosto, o Brasil entrou em quadra e venceu a Inglaterra por 7 a 3. Daí em diante, todas as partidas da fase de descenso foram jogadas sob a máscara do protesto. O Brasil exigiu que a indignação constasse na súmula oficial dos jogos, mas até isso os dirigentes do CIRH censuraram.


A Verdade Invicta

A tentativa de abafar o escândalo falhou. Marcelo convocou uma coletiva de imprensa detalhando a farsa, enquanto o jornal LANCE! voltou às bancas publicando uma nova denúncia contundente.

O Chile, país-sede e beneficiário direto da exclusão do Brasil de seu caminho, engrossou o coro cínico do “deixa pra lá”. Ironicamente, Portugal — o autor da denúncia falsa — foi eliminado exatamente pelo Chile, que acabaria conquistando o título mundial ao vencer a Espanha no gol de ouro. Durante aquela final, as brasileiras, já relegadas ao 9º lugar, estenderam uma imensa faixa na arquibancada denunciando a corrupção no hóquei mundial.

O desempenho do Brasil no torneio de rebaixamento foi um grito de superioridade: o país venceu todos os seus jogos e terminou como a única seleção que não perdeu de todo o campeonato mundial. Patricia Martins foi, pela 5ª vez, a artilheira isolada da competição, marcando assombrosos 18 gols. Com medo de que o momento da premiação virasse um novo palco de protestos, a organização simplesmente sumiu com o troféu. A atleta nunca recebeu a honraria que conquistou no rinque, e o Brasil, em um último ato de dignidade, boicotou o desfile de encerramento.


O Fim de Uma Era e o Peso da Ingratidão

As cicatrizes de Santiago de 2006 nunca se curaram, e o saldo foi uma tragédia esportiva e pessoal. Marcelo escreveu uma carta aberta ao CIRH e à FPP, que nunca foi respondida e lhe custou um afastamento do esporte por anos. O selecionador Antônio Martins NUNCA recebeu o reembolso da CBHP, mesmo cumprindo todas as chantagens. Ele se afastou do hóquei e levou mais de 10 anos para se recuperar financeiramente, esmagado pelos juros bancários do empréstimo que fez por amor à seleção.

Carta Aberta – Doping.PDF

Para Patricia Albuquerque, aquela foi a última vez que vestiu a camisa da seleção nacional. Embora tenha continuado a brilhar nas quadras por muitos anos, ela nunca mais reconheceu a CBHP como patrona do hóquei nacional.

O episódio chileno decretou a morte do hóquei feminino no Brasil. O país passaria seis anos sem formar uma seleção, retornando apenas no Mundial de 2012, em Recife. Foi somente nessa ocasião, tarde demais, que o então presidente do CIRH, Harro Strucksberg, reconheceu que foi armado um golpe.

Vinte anos depois, a história cobra o seu lugar. A comissão técnica daquela geração nunca recebeu o reconhecimento oficial que merecia. Em três mundiais disputados sob o comando daquele grupo, o Brasil construiu um cartel assustador de 14 vitórias e apenas 2 derrotas, as duas finais que participou.

Elas não voltaram de Santiago com a taça de campeãs do mundo, mas o tempo provou que, naquele fatídico ano de 2006, o Brasil não perdeu o campeonato; o campeonato é que perdeu a honra.


| Reportagem publicada no portal www.tvokbrasil.com.br pelo próprio autor.
| Autor: Marcelo Martins de Albuquerque

Deixe um Comentário