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O Paradoxo que Dói: Meninas que Chegam, Mulheres que Somem

Existe uma cena bonita que se repete em ginásios por todo o Brasil. Meninas de seis, oito, dez anos calçando patins pela primeira vez, segurando o stick com as duas mãos, caindo e levantando com aquele sorriso que só a infância tem. As escolinhas de hóquei sobre patins nunca tiveram tantas meninas quanto agora. Os olhos brilham. O talento aparece cedo. A paixão é genuína.

Escolinha do Atlético Bauru com muitas meninas na Base.

E então o tempo passa.

E o hóquei feminino brasileiro some.

Havia um tempo em que o Brasil brigava com os melhores

Antes de falar do presente, é preciso ter a coragem de olhar para o passado. Porque o hóquei feminino brasileiro não chegou onde está por falta de talento. Chegou aqui por falta de memória — e de respeito pelo que foi construído.

A Seleção Brasileira Feminina de Hóquei sobre Patins foi vice-campeã mundial em 2002 e em 2004. Dois vices consecutivos no Campeonato do Mundo. Duas finais. Duas gerações de jogadoras que vestiram a camisa amarela e chegaram a um passo do topo do mundo.

Seleção Brasileira Vice Campeãs 2002 e 2004.

Isso não foi sorte. Foi trabalho, estrutura, competição, clubes funcionando, um campeonato nacional que existia de verdade e uma geração de atletas que tinha para onde correr depois das categorias de base.

Esse Brasil existiu. Esse hóquei existiu. E foi deixado morrer.

O funil que não deveria existir

É um dos paradoxos mais dolorosos do esporte nacional: nunca houve tanto talento feminino na base do hóquei sobre patins brasileiro — e nunca a categoria sênior esteve tão abandonada.

As escolinhas crescem. As turmas femininas se multiplicam. Treinadores relatam que, em muitas cidades, as meninas já são maioria nas categorias mais jovens. Um fenômeno real, concreto, que deveria ser motivo de celebração e, acima de tudo, de investimento.

Campeonato Brasileiro Feminino de Base 2025 com muitas meninas nas escolinhas.

Mas o que acontece quando essa menina cresce? Quando ela passa dos 14, dos 16, dos 18 anos? Quando ela termina a categoria de base e procura um time sênior feminino para continuar jogando?

Em grande parte do Brasil, a resposta é silêncio.

Não há equipe. Não há competição. Não há estrutura. Não há futuro.

A agonia silenciosa

O hóquei feminino sênior no Brasil agoniza em voz baixa. Não há colapso dramático, não há escândalo, não há briga pública. Há algo pior: indiferença.

Clubes que formam meninas por anos a fio não conseguem — ou não se esforçam o suficiente — para manter um time feminino adulto competitivo. Federações estaduais que organizam campeonatos masculinos com regularidade tratam o feminino como apêndice, como favor, como item de última pauta. A Confederação, que deveria liderar uma política nacional de desenvolvimento do hóquei feminino, observa a situação com uma passividade que beira o conluio com o abandono.

O resultado é uma geração de jovens jogadoras que atinge a fase mais produtiva da vida esportiva e se depara com o vazio. Algumas migram para outros esportes. Outras simplesmente param. Poucas — as mais teimosas, as mais apaixonadas — insistem em competir com o que há, quando há, onde há.

São heroínas invisíveis num esporte que ainda não aprendeu a enxergá-las.

O presente que acusa

No Pan-Americano de 2025, realizado em San Juan, na Argentina, o Brasil encerrou a competição na quarta colocação, ficando fora do pódio. A Argentina confirmou seu favoritismo e levantou o troféu feminino com autoridade, reafirmando a hegemonia continental.

Campeonato Panamericano 2025 em San Juan – ARG.

Quarta colocação. O mesmo Brasil que disputou duas finais mundiais no início dos anos 2000 hoje não consegue chegar ao pódio continental. A distância entre o que foi e o que é não tem explicação técnica. Tem explicação institucional. Tem explicação política. Tem explicação na ausência de competição regular, de estrutura de clubes e de uma confederação que trate o feminino como prioridade — e não como obrigação burocrática.

O contraste que acusa

Enquanto isso, no mesmo ginásio, no mesmo clube, no mesmo fim de semana, o hóquei masculino funciona. Há campeonato, há equipe, há estrutura, há patrocinador. O calendário existe. Os jogos acontecem.

A menina que treinou do lado, desde os seis anos, com o mesmo empenho, a mesma dedicação e o mesmo talento, assiste. E aprende, cedo demais, uma lição que nenhum esporte deveria ensinar: que o seu lugar não é garantido. Que o seu esforço não tem o mesmo valor. Que ela pode ser formada, mas não sustentada.

Isso não é apenas injusto. É um desperdício monumental de talento, de paixão e de potencial humano.

O que o mundo já entendeu

Não é necessário olhar muito longe para ver como o problema pode ser resolvido. Em Portugal, Espanha e Argentina — as grandes potências do hóquei sobre patins — o hóquei feminino sênior é competitivo, organizado e crescente. A WSE Champions League feminina existe, tem equipes de alto nível, tem cobertura e tem público. As jogadoras têm carreira. Têm futuro.

Marlena Rubio, espanhola filha de brasileiro, que joga na LIGA Espanhola e Seleção Brasileira.

Não chegaram lá por acidente. Chegaram porque clubes investiram, federações organizaram e a confederação tratou o feminino como prioridade — não como concessão.

O Brasil já provou que pode chegar lá. Chegou duas vezes à final do mundo. Sabe o caminho. Esqueceu de percorrê-lo.

Uma geração que não pode esperar

Cada ano que passa sem uma estrutura sólida para o hóquei feminino sênior brasileiro é um ano em que jogadoras talentosas encerram carreiras antes de começá-las. É um ano em que o pipeline de formação — que funciona tão bem na base — despeja seu produto direto no lixo institucional.

As meninas das escolinhas de hoje têm entre seis e doze anos. Daqui a dez anos, elas estarão na faixa etária do hóquei sênior. O Brasil tem exatamente esse tempo para reconstruir o que um dia já foi grande — uma estrutura de competição feminina regular, um calendário nacional consistente, clubes comprometidos com times adultos, federações que tratem o feminino com a mesma seriedade do masculino.

Dez anos é tempo suficiente. Se começar agora.

O hóquei que o Brasil merece ver — de novo

O Brasil já foi vice-campeão mundial. Isso não é fantasia nem projeto. É história. É prova concreta de que o hóquei feminino brasileiro tem capacidade de competir com os melhores do mundo quando tem condições para isso.

Patrícia Albuquerque já foi considerada a melhor do mundo nos anos 2000.

Existe um hóquei feminino brasileiro que o Brasil quer ver de novo. Ele está sendo formado agora, em ginásios espalhados pelo país, por meninas que caem e levantam sorrindo, que aprendem o manejo do stick antes de aprender a escrever em letra cursiva, que sonham em jogar para valer um dia.

Esse dia precisa existir. Precisa ter data, endereço e adversário.

Ou o Brasil continuará sendo um país que sabe muito bem como acender uma chama — e ainda não aprendeu como não deixá-la apagar.

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