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O Tempo Não Marca Gol — Mas Também Não Para!

Há um momento, em qualquer ginásio de hóquei sobre patins que se preze, em que o veterano entra em quadra e a torcida já sabe. Não pelo número na camisa. Não pelo cabelo grisalho que começa a trair as têmporas. Sabe pelo jeito como ele lê o jogo antes de ele acontecer — como se o tempo, para ele, corresse dois segundos mais devagar do que para todos os outros.

É esse dom silencioso que está no centro de um debate que o hóquei sobre patins trava consigo mesmo há anos, mas que raramente tem coragem de colocar em voz alta: afinal, o que fazemos com os veteranos?

Ultimo Campeonato Brasileiro Sênior contou com vários craques das antigas em alto nível.

A pergunta soa rude. É de propósito.

Nos últimos campeonatos — da OK Liga ao Europeu de clubes, passando pela Liga Portuguesa, pelo Campeonato Brasileiro e pelas competições sul-americanas onde Argentina e Chile seguem entre os principais protagonistas do continente — um padrão teimoso insiste em se repetir: são os jogadores acima dos 30, por vezes acima dos 35, aqueles que decidem os grandes momentos. Os que aparecem quando a pressão aperta. Os que não tremem no pênalti que vale o título.

A juventude entra em quadra com energia elétrica, com pernas que não conhecem cansaço, com uma ambição que contagia as arquibancadas. Mas quando o placar está empatado e faltam três minutos — é para o veterano que o treinador olha. Sempre.

Isso incomoda. E bem que incomoda.

O etarismo no esporte tem duas faces igualmente hipócritas.

A primeira é a da adoração acrítica do jovem: a obsessão de clubes e federações em apresentar “a nova geração”, em fabricar promessas antes de elas estarem prontas, em queimar etapas por razões que têm mais a ver com marketing do que com esporte. O garoto de 17 anos é fotografado, entrevistado, comparado aos grandes — e depois, quando a pressão o esmaga, nos perguntamos onde foi que deu errado.

A segunda face é a do descarte prematuro do experiente: o jogador de 33 anos que ainda rende no mais alto nível, mas que começa a ser visto como problema contábil, como alguém que ocupa uma vaga que “deveria” ser de alguém mais novo. Como se a experiência não fosse, ela própria, uma forma de talento raro e inimitável.

As duas visões partem do mesmo erro: tratar a idade como critério esportivo quando ela é, no máximo, um dado clínico.

João Rodrigues, Pau Bargalló e Lucas Ordoñez, nomes que qualquer torcedor de hóquei sobre patins reconhece. Carreiras longas, currículo pesado, e a recusa obstinada em virar saudade enquanto ainda há jogo para dar.

Europa também mantem alguns jogadores mais experientes em grandes equipes.

O que esses jogadores têm em comum não é a longevidade em si — é o que fizeram com ela. Transformaram anos de experiência em uma inteligência tática que nenhum centro de formação consegue ensinar em quatro temporadas. Aprenderam a poupar o corpo para manter a mente alerta. Descobriram que o gol mais difícil não é o que exige mais força, mas o que exige mais calma.

Isso não se compra. Não se fabrica. Cresce — e demora.

O problema real não é a coexistência entre veteranos e jovens. Essa é, aliás, a equação perfeita de qualquer time bem construído. O problema é quando essa coexistência deixa de ser gerida com critério esportivo e passa a ser conduzida por narrativas externas: a pressão midiática para “apostar na juventude”, a pressão financeira para não renovar contratos de jogadores experientes, a pressão cultural que confunde renovação com substituição.

Renovar não é apagar. É acrescentar.

O hóquei sobre patins é, por natureza, um esporte de leitura e antecipação. Um esporte onde a técnica apurada ao longo de décadas compensa — e muitas vezes supera — o atletismo bruto. É, portanto, um esporte onde a curva de rendimento é mais longa e mais gentil do que em modalidades de puro esforço físico. Ignorar isso é ignorar a própria natureza do jogo.

Na próxima vez que um veterano de mais de 35 anos levantar um troféu — e isso vai acontecer, pode ter certeza —, resistamos à tentação de dizer que foi “apesar da idade”. Foi, precisamente, por causa dela.

Didi aos 55 anos foi campeão e um dos destaques no Campeonato Brasileiro Sênior 2026.

O tempo não marca gol. Mas quem soube aproveitá-lo, esse sim, marca.

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